Como lidar com a sala de aula? Lições do Marketing para a Educação

Tempo de leitura: 11 minutos

Certa vez, conversando com um coordenador de uma escola em Itú-SP, ele me contou um segredo seu em como lidar com a sala de aula.

Achei bem interessante que de forma intuitiva ele utiliza metodologias utilizadas na economia e no marketing.

Com um toque criativo e inusitado que se você continuar lendo o artigo irá descobrir.

Seja para dar uma aula de matemática, dar uma palestra ou apresentar um show de humor, os desafios são incrivelmente parecidos.

Para todos os efeitos, vamos chamar essa platéia de Sala de Aula.

E os desafios basicamente podem ser resumidos em: Como manter o interesse da Sala de Aula no conteúdo?

Eu vou compartilhar nesse artigo uma técnica simples e eficiente que pode mudar para sempre sua forma de encarar a sala de aula. E facilitar muito a sua vida.

É algo aparentemente anti pedagógico, talvez até polêmico, mas antes de me atirar pedras, aplique isso com sinceridade. E você terá resultados praticamente imediatos.

É uma lição do marketing que pode ser facilmente aplicado na educação. Trará inúmeros benefícios práticos e de resultados emocionais.

Pode ser que no começo você escorregue um pouco, mas acredite, se persistir pode mudar a sua vida.

Seja você um profissional da educação, palestrante, até mesmo um gestor de equipes ou qualquer pessoa que lide com o público, ou seja, uma audiência, esse artigo é para você.

Dores, Inseguranças, Aflições e Medos

 

Uma das coisas mais surpreendentes que eu descobri trabalhando com escolas é que boa parte dos professores, pasmem, têm medo de falar em público.

É bem comum eles me parabenizarem pela coragem de trabalhar com palestra e Show de Stand UP.

E no começo eu pensava: mas pera aí, você também trabalha com público, afinal dar aula e dar palestra são coisas bem parecidas.

Ledo engano. Não é assim que a maioria acredita que está acontecendo. Boa parte dos professores separam as coisas: dar aula é uma coisa, dar palestra é outra que exige muito maios preparo e coragem.

Realmente, lidar com público ou com a sala de aula exige superar medos e inseguranças.

Já foi comprovado por pesquisas que as pessoas têm mais medo de falar em público do que da morte.

Como diria o humorista americano Jerry Seinfield: ou seja, em um velório, as pessoas preferem estar no caixão do que fazendo o discurso.

Diante dessa sombria realidade é necessário conhecer técnicas que facilitem a vida de quem ainda está vivo.

Pois, por determinado ponto de vista, falar em público é uma morte; a morte de todas as ilusões de que você irá agradar a todos.

Para começo de conversa

Para começo de conversa é tão ilusório acreditar que todo mundo está  gostando da sua aula e/ou palestra, quanto acreditar que ninguém está e gostando.

É óbvio e recomendável acreditar que sempre podemos fazer o nosso trabalho melhor.

Particularmente acredito que a margem de aperfeiçoamento é a mesma do intervalo entre dois números naturais, ou seja, infinita. (Piadinha de professor de matemática, que inclusive explica por que ele é professor de matemática e não humorista).

Para algumas pessoas falar em público é como subir em um telhado de vidro, em um dia de chuva de pedras, com um monte de gente com cabos de vassoura por baixo batendo para o teto quebrar.

É uma sensação que gera uma certa adrenalina, uma taquicardia. Não à toa, tem gente que prefere morrer.

Então, para enfrentar esse desafio, lembre-se: o máximo que pode acontecer é o teto se quebrar e você cair em na lagoa de crocodilos debaixo dele.

Tá tranquilo, tá favorável.

Mas, falando sério, o risco de falar em público é o constrangimento, e acredite, existem problemas muito maiores do que esse na vida.

A Regra 80/20

Você já deve ter ouvido falar do princípio de Pareto.


Princípio de Pareto:

Para muitos eventos, aproximadamente 80% dos efeitos, vem de 20% das causas

Por exemplo, em um comércio, é bem comum que 80% do faturamento da loja venha de 20% dos clientes.

Ou ainda, aproximadamente 20% das pessoas no mundo detém 80% do total da renda.

E por aí vai.

Para lidar com a Sala de Aula a primeira coisa a se considerar é que não convém generalizar com percepções do tipo: eles não se interessam por nada.

Lembrando que é tão impossível todos da sala de aula não se interessarem por nada quanto todos se interessarem por tudo.

E a segunda coisa a se considerar é que não convém dar atenção única e exclusiva apenas para uma pessoa, a não ser que seja uma aula particular.

Em meu artigo em Como lidar com Jovens? 10 Princípios (1ª Parte);

CLIQUE AQUI E LEIA O ARTIGO

O 4º princípio mostra que: Jovem gosta de sentir-se único e especial e  ao mesmo tempo ser aceito por todos.

O desafio portanto é encontrar um bom equilíbrio entre a generalização e a especificidade.

O que fazer então?

Como lidar com a sala de aula? Uma alternativa criativa

Um dos princípios do marketing diz que é mais fácil prever o comportamento de uma multidão do que de uma única pessoa.

Como assim?

É que não importa o critério que você utilizar para separar essa multidão, você terá no máximo 5 níveis daquele determinado critério.

Por exemplo:

Imagine uma loja que venda Creme de Abacate em uma avenida movimentada.

Todos os dias passam cerca de 1000 pessoas na porta da loja.

Dá para estabelecer o seguinte desenho em relação aos clientes em potencial dessa loja (aplicando o Princípio de Pareto).

5 % São Fãs de Creme de Abacate (cerca de 50 pessoas)

15% Gostam de Creme de Abacate (cerca de 150 pessoas)

15%  Têm outras preferências, mas também comem Creme de Abacate (150 pessoas)

15% Nunca experimentaram Creme de Abacate (Cerca de 150 pessoas)

20% Não gostam de Creme de Abacate (Cerca de 200 pessoas)

Por essa organização, talvez você não saiba exatamente quem, em um primeiro momento, comeria na Loja de Abacate.

Mas com uma boa margem de acerto dá para saber que: cerca de 5% das pessoas se tornarão seus clientes fiéis.

20% das pessoas nunca comprarão na loja de Creme de Abacate.

E 75% das pessoas têm potencial para serem clientes eventuais e até se transformarem em clientes fiéis.

Sabendo disso, dá para abrir a loja de Creme de Abacate por ali.

Como fazer na Sala de Aula?

Se você quiser utilizar outro critério, fique à vontade, mas a título de exemplo, vamos organizar a Sala de Aula por nível de empatia com o professor.

 

5% - Não importa o que você fala ou faz, o aluno se identifica com você. Vai com a sua cara.

15% - Não terão muita expectativa por você e serão surpreendidos.

15% - Colocarão muita expectativa e serão levemente decepcionados. Não dirão que amam, muito menos que detestam. Para eles você será um professor normal.

15% - Gostará secretamente da sua aula e não falará para ninguém, por medo do que os outros vão pensar e falar.

20% - Não importa o quanto você se esforce para agradá-lo, não gostará de você.

 

É claro que você pode utilizar outros critérios como: nível de esforço, nível de inteligência, nível de engajamento com as atividades, nível de atenção, o que for mais conveniente.

Não importa qual critério você utiliza, serão no máximo 5 níveis.

E o que isso muda?

 

E o que isso muda? Tudo. É bem mais simples e prático lidar com 5 perfis de alunos do que lidar com 40 alunos, 400, 4000 alunos.

Para cada perfil você pode traçar uma estratégia diferente. E assim você terá um maior domínio da sua platéia, da sua sala de aula.

Ou seja, 20% estão gostando ou amando, 20% estão detestando, te resta 60% para você conduzir para um nível mais elevado.

Experimente fazer isso e depois me conte.

Antes de experimentar, apenas uma sugestão: faça um diagnóstico, trace um perfil da sua turma.

Se você fosse transformar todos os seus alunos em apenas um aluno, como seria esse aluno?

O Humor é uma excelente ferramenta para combater o tédio, ainda mais com os jovens.

Do ponto de vista do jovem, se a vida fosse um parque de diversões o Instagram é a montanha russa e a sala de aula é o teleférico.

Mesmo assim, sou a favor de professores não virarem reféns das preferências de jovens.

Jovens necessitam de orientação, mas não querem orientação.

Orientação é como oxigênio, não é o tipo de coisa que a gente pergunta ao jovem: hei seu jovem, você quer orientação? Assim como não perguntamos se eles estão a fim de oxigênio hoje.

Ahhh, mas jovens são muito resistentes

A objeção clássica dos professores ou pessoas que lidam com jovens é a de que jovens são muito resistentes.

Em relação a isso, eu costumo dizer que a vida é cheia de pois é.

Os jovens são resistentes? Pois é. Alegar que os jovens são resistentes é a mesma coisa dizer que existe a lei da gravidade.

Os fabricantes de avião se ocupam em desenvolver aeronaves que vençam a lei da gravidade e não um avião que inverta a Lei da Gravidade.

Os fabricantes de avião não se lamentam e falam assim: caramba eu não contava com a lei da gravidade.

Alguns professores, sem perceber, às vezes falam: caramba, eu não sabia que os jovens agiam como jovens.

Qualquer platéia oferece resistência. O desafio do professor, do palestrante, do apresentador é justamente vencer essa resistência.

Mas existem os casos de extrema e imensa resistência.  Para esses casos eu recomendo a estratégia do nosso colega de Itu.

 

A Curiosa Estratégia do Cubo Mágico

E aqueles alunos que não querem nada com nada mesmo?

Agora chegou a hora de revelar o segredo do professor de Itú.

Simples, para esses alunos, dê um Cubo Mágico.

Não literalmente, é claro, mas ocupe esses alunos com atividades e não espere nada deles.

Esses, muito provavelmente serão bons alunos da vida. A vida ensinará a eles o que eles estiverem precisando aprender.

Parece cruel, parece exclusão, mas eu vejo que não é, muito pelo contrário.

É uma forma de dar tempo ao tempo, sem forçar nada, aos poucos ir cativando esse aluno, sem que ele perceba que você está fazendo isso.

 

Você gostaria de ser seu próprio professor?

Eu não sou professor, mas lido quase diariamente com plateias de 100, 200, 500 pessoas.

Têm professores que, somando todas as suas turmas, dão aulas para mais de 500 alunos.

Você lidar com 5 tipos de alunos, facilita e muito o trabalho, o o relacionamento com cada aluno.

Claro que cada um é um ser humano único e especial e eu vejo que é justamente esse o maior benefício de aplicar essa simples técnica.

Focar no cativar para ensinar.

Ninguém se torna memorável porque ensinou química inorgânica para outra pessoa.

Uma lei de ouro dos relacionamentos humanos é que lembramos das pessoas pela forma como elas nos tratam.

É a grande pergunta que  me faço ao me autoavaliar: eu gostaria de assistir a minha palestra?

Recomendo o mesmo: você gostaria de ser seu próprio professor? 

Ficarei bem feliz em saber que esse artigo serviu para você em algum sentido.

Comente e compartilhe.

Felicidade para todos nós!