O que é Felicidade? Discordando do Kant (em partes)

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Nesse artigo vou te apresentar a minha melhor resposta para a pergunta O que é Felicidade?

Não temos vocação para a Felicidade

Recentemente chegou até mim, pois, hoje em dia, a gente não chega até as coisas, as coisas chegam até a gente, um vídeo do brilhante professor Clóvis de Barros Filho falando a respeito da Felicidade, do ponto de vista do filósofo Immanuel Kant.

SE FICOU CURIOSO ASSISTA O VÍDEO DO CLÓVIS DE BARROS

Para quem já teve a oportunidade de ver alguma aula, palestra, vídeo, livro do Clóvis de Barros sabe da intensidade com a qual ele pensa.

Se existe muita gente no mundo hoje que parece não refletir e pensar, o Clóvis de Barros parece compensar pensando por umas 1.333.999 pessoas mais ou menos.

Assim como o Brasil deveria distribuir melhor sua renda, suas terras, deveria existir um movimento de Distribuição do Pensamento, repartindo melhor a capacidade de pensar entre todos da população.

O Clóvis concentra muito pensamento nele mesmo. E isso não é uma crítica.

Quem você pensa que é?

Usando uma reflexão filosófica simples você poderia me fazer uma simples pergunta: quem você pensa que é para discordar do Kant?

Como você vai discordar de um dos pensadores mais influentes do século XX que escreveu a Crítica da Razão Pura?

Mas, em minha defesa, utilizando o mesmo rigor filosófico, eu poderia lhe devolver com uma outra pergunta: – Já que eu não tenho capacidade intelectual de discordar de Kant, como eu poderia CONCORDAR com Kant?

Se eu não tenho discernimento suficiente para discordar, não posso ter discernimento suficiente para concordar.

A não ser que sejamos apenas convenientes: se concorda é por  que entendeu, se discorda é por que não entendeu.

Diante disso eu “mim” autorizo a discordar (em partes) desse ser pensante que eu tanto admiro.

Discordando de Kant (e por tabela do Clóvis)

Pelo o que eu compreendi da vídeo-aula do Clóvis de Barros, o conceito de Felicidade apresentada ali é no sentido de Felicidade como ferramenta para maximizar o prazer e reduzir a dor.

Para Kant, essa Felicidade não é o que existe de mais importante, não é o bem maior, não é aquilo que devemos buscar de qualquer jeito.

E por que não? Por que isso significaria usar o martelo para pintar uma parede (gostei dessa!).

O Homem não está naturalmente vocacionado para a Felicidade. Ele é o instrumento errado.

Por que ele, o Homem, é um ser reflexivo e  o pensamento, segundo Kant, atrapalha a busca da Felicidade.

É muito mais competente para buscar a Felicidade quem não pensa, e quem não pensa é animal.

Felicidade é referência para a vida de animais, para nós, o mais importante é a nossa capacidade de pensar.

Julgar a conduta das pessoas pela busca da Felicidade, é julgar pelo critério errado; maximizar o prazer e reduzir a dor.

Não devemos nos julgar assim!

Então, se não é a Felicidade, qual é o nosso critério? A capacidade de pensar!

Você é um Bosta!

O professor Clóvis deu um exemplo inteligente, que remete a sala de aula.

Se a boa conduta é aquela que sempre traz a felicidade, por exemplo, na educação, seria um professor que só agrada aos alunos, não corrige, não educa, ele tem que fazer o aluno sorrir o tempo inteiro.

E educar pressupõe dor, correção, crescimento. Educar é dizer para o aluno: você é um bosta! (Foi assim mesmo que ele disse, assista ao vídeo).

Felicidade é coisa de gente superficial!

O que existe de valioso na vida é a lucidez diante do sofrimento e da dor. (guarda essa frase no seu coração, vou retomar ela mais na frente)

Se agir bem é querer alegrar todo mundo o tempo todo, então agir bem é querer transformar o mundo em um show do Ary Toledo, é querer transformar o mundo em um show do Tom Cavalcanti.

É uma estupidez sem precedentes, não fomos feitos para isso.

Temos uma bala de canhão que é a nossa capacidade de pensar e utilizamos a felicidade que é um tiro de chumbinho.

O nosso critério é muito diferente do que apenas prazer e dor,

SE FICOU CURIOSO ASSISTA O VÍDEO DO CLÓVIS DE BARROS

Por que eu discordo em partes?

A partir do momento que o Clóvis falou de Humoristas, mexeu comigo.

1º O que eu concordo?

Educar pressupõe dor e sofrimento, pois, eu entendo que crescer dói, mas, não crescer, dói mais.

Então o papel da professora ou do professor é justamente auxiliar o aluno a chegar lá, a atingir o seu melhor.

Seja o professor de física, de química, de karatê ou de flauta.

E nesse processo de chegar lá, de atingir o melhor, terá dor, sofrimento, superações, desafios.

Só não consigo enxergar o que isso não tem a ver com felicidade.

O que é Felicidade? Meu palpite

E por que eu estou me envolvendo nesse embate? Não é por mim, pessoalmente.

Apenas tento falar em nome de uma quantidade considerável de jovens que já me perguntaram após as apresentações: O que é Felicidade para você?

Eu sinto muito, mas não consigo dar essa resposta do Kant, sendo bem sincero, não consigo olhar para um jovem de 12, 15, 17 anos e dizer que não somos vocacionados para a Felicidade.

E imagino que deve ser um sofrimento para qualquer professor pensar assim, menos para o Clóvis.

O fato de eu não ter uma resposta para algo, não significa que esse algo não tenha resposta.

Em relação ao ponto que diz: educar pressupõe dor, um professor que só agrada aos alunos é um mal professor.

Eu tenho na minha memória a FELICIDADE de ter tido excelentes professores, que me convidaram a sair da zona de conforto, que me desafiaram, para eu ser melhor do que eu mesmo, e eu sinto que me fez bem.

O Clóvis é um deles! Eu não tenho ressentimentos dele, pelo contrário.

Para mim, um humilde ser pensante, não tão intenso quanto o Clóvis, nem tão importante quanto o Kant, a Felicidade a princípio é um mistério.

Mistério porque todos, (ou quase todos), a querem, mas o que é Felicidade para mim, não é necessariamente o que é Felicidade para você.

Aqui vai o meu ponto de vista.

Essa é uma das perguntas que eu mais me fiz e mais me fizeram ao longo da história do espetáculo #verdades.inconvenientes: O que é Felicidade?

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Um Dom

Eu tenho a seguinte reflexão:

É muito fácil acreditar que Felicidade é atender todos os prazeres da vida.

Felicidade é sentir prazer o tempo todo, com comida, com música, com amigos, sexo e por aí vai.

Apesar de ser prazeroso sentir prazer, não dá para viver a vida só sentindo prazer.

Então, hoje em dia, quando me perguntam o que é Felicidade, é quase a mesma coisa que perguntar para um arquiteto e um engenheiro civil: Como construir uma ponte?

É fácil construir uma ponte? Não!

Mas é possível construir uma ponte? Sim!

A Felicidade é como uma Ponte; é uma obra que demanda uma combinação considerável de coisas simples.

Mas, uma forma simples de visualizar essa OBRA da Felicidade é comparar com um Maratonista.

É prazeroso, se preparar, treinar diariamente, para correr 42 km? Não.

É prazeroso correr esses 42 Km? Muito pelo contrário, é doloroso e sofrido.

Eu nunca fiz isso, mas já pude testemunhar algumas vezes corredores que quando cruzaram a linha de chegada, sentiram um prazer superlativo, incomensurável, uma realização, por terem superado a si mesmo.

Ao meu ver a Felicidade não é ausência de dores, sofrimentos e tristezas, mas é essa História, essa Obra que cada um de nós escrevemos e construímos na busca de sermos melhor do que a si próprio.

Para se correr uma maratona existem componentes como preparação física, alimentação, repouso, disciplina mental (uma combinação infinita de coisas simples).

Para a Felicidade vejo algo parecido.

A Felicidade tem duas companheiras: Responsabilidade e Liberdade.

Responsabilidade no sentido que a Felicidade não pode ser um atentado a vida, nem a própria e nem a de alguém.

E Liberdade, no sentido que ela tem que nos libertar de algo que nos oprima e sem oprimir a ninguém.

Fácil de falar, nem tão simples de praticar, por isso que é uma Obra.

Portanto, um dos componentes fundamentais da Felicidade ao meu ver é… (se segura na cadeira, você não vai acreditar):

A LUCIDEZ DIANTE DO SOFRIMENTO E DA DOR. (Lembra que eu pedi para você guardar essa frase no coração?)

Quando um Filósofo fala que o que existe de mais valioso na vida é a Lucidez diante do sofrimento e da dor, ao meu ver, ele está justificando a Felicidade como bem maior e não negando.

Eu não tenho nada contra o Kant e nem o Clóvis, mas no debate da Felicidade eu fico com o Almir Sater.

Creio que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente. Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e de ser feliz.

Tocando em Frente

Eu sinto, inclusive, que eu concordo em quase tudo do Kant, só não consigo concordar que não somos “vocacionados para a felicidade”.

O Kant precisava ter conhecido o Almir.

É fácil compreender a marcha? Não! É fácil ir tocando em frente? Não. Mas é possível. Somos capazes disso.

E assim seguimos compondo a nossa história, carregando esse dom de ser feliz!

Gosto também de pensar que a Felicidade é “aquele momento que nós gostaríamos que nunca mais acabasse” mas ele sempre acaba e aí o que a gente faz? Começa tudo de novo!

Esse é o compromisso com a Felicidade. Nós somos capazes de ser assim!

É dolorido, é sofrido, mas é possível.